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| "O lavrador perspicaz conhece o caminho do arado." Homenagem a Oscar Barbosa Souto. Antigo lavrador, garimpeiro, comerciante, tabelião e juiz de paz. In Memoriam. |
Nolan versus Homero
Com grande publicidade, foi lançado o filme “Odisseia”, de Cristopher Nolan, ambientado na Grécia antiga e baseado em livro homônimo do escritor grego Homero. Há grandes controvérsias no andamento dessa película.
Inspirando-me em um vídeo postado nas redes sociais por um jovem não identificado, mas profundo conhecedor das obras de Homero, apresento os aspectos mais questionáveis ou provocativos do filme “Odisseia”, de tal sorte a entregar posicionamentos não tão favoráveis, sobre a obra, aos interessados em arte cinematográfica.
O diretor Nolan colocou a atriz negra Lupita Nyong’o para interpretar Helena de Troia. É imperioso destacar que o ideal de beleza feminina para o mundo grego antigo era baseado na pele branca e clara. Os gregos não viam o mundo como raça branca ou negra; eles viam a cor como estética e símbolo social e divino. Portanto, colocar uma atriz negra para representar Helena é inverter completamente o padrão de beleza do povo que criou essa história. Adicionalmente, Nolan colocou Lupita Nyong’o para interpretar também Clitemnestra, esposa de Agamenon, irmã de Helena. Quer dizer, houve a decisão da escolha de Lupita para fazer o papel de duas aristocratas gregas branquelas da cultura grega.
A escolha de Lupita, uma atriz negra, não tem a menor justificativa histórica ou cultural. Um articulista debochado diria que isso equivale a colocar uma atriz loira para fazer o papel de uma grande heroína africana negra, em um filme épico daquela região.
Segundo o livro de Homero, a cena mais conhecida e emblemática da história inteira é a chegada de Odisseu e seus guerreiros na ilha dos Ciclopes. Com esse episódio, Homero cria, pela primeira vez, o terror psicológico global — quando Odisseu e seus guerreiros ficam presos na caverna, há uma agonia e um terror indescritível; terror lento, mórbido e agonizante. O diálogo entre Odisseu e o Ciclope Polifeno (filho de Poseidon) é incomparável; Odisseu o engana e foge.
Nolan não chega nem perto de passar a emoção e a angústia que esse conjunto de cenas carrega na obra.
Depois de fugirem da ilha de Eulo, que é o senhor dos ventos, os navios pegam tempestades e são arrastados e desembarcam na ilha dos Lestrigones — os comedores de homens. Aí uma carnificina começa a ocorrer e Odisseu e seus homens tentam retornar para os navios. Morreram mais amigos de Odisseu nesse episódio do que durante toda a Guerra de Troia. Os Lestrigones começam a lançar pedras nas embarcações de Odisseu e destroem 11 dos 12 navios. Trata-se do evento mais traumático e psicologicamente terrível de toda a obra.
Nesse caso, Nolan torna o episódio irrelevante; ademais, coloca nos bárbaros Lestrigones, vivendo na idade do bronze, armaduras de aço, existente apenas em idades recentes.
E os navios de Odisseu? Nolan utilizou navios vikings na Grécia antiga. Quem consegue construir um navio viking, pode facilmente fazer um navio grego antigo, como, por exemplo, os que apareceram no filme Troia.
Ora, em filme épico com um orçamento estelar, Nolan deveria utilizar embarcações que projetassem o ambiente histórico que está sendo transmitido.
Agora, vem Demódoco, um respeitado bardo da Grécia antiga. Ele é o bardo divino da corte de Alcino, que é inspirado pelas musas divinas a cantar a história dos gregos.
Nolan colocou no filme, um personagem do “RAP” (estilo de música urbana focado no ritmo, rima e poesia falada — Rhythm And Poetry), sob a alegação de que esse gênero da atualidade tem uma forte tradição oral assim como a poesia grega.
A deusa Atena, linda e inspiradora na obra de Homero, apareceu no filme como personagem que poderia ser considerada uma lavadeira. Imagine Odisseu passando 20 anos longe de casa, passando fome e frio, naufragando, tendo centenas de guerreiros amigos sendo devorados por monstros; indo para o Ades, encontrando a mãe morta, ou seja, sofrendo de forma intensa; e aí quando aparece Atena, para confortá-lo, enchê-lo de coragem, surge uma aparição que está longe de beleza e inspiração; a rigor, está mais acabada do que o próprio Odisseu depois de 20 anos de guerra! Se Atena aparecesse assim para Odisseu, iria deixá-lo mais desanimado e pessimista.
Uma vez mais, Nolan quebrou a virtude da obra original, pois falta à sua Atena elevada postura, firmeza, controle emocional e brilho.
Por último e extremamente relevante, relembremos a Circe de Homero. Ela vivia em um glorioso palácio, cercado de servas alegres, mercê de ambiente onde prevalecia a beleza humana e material, bem como a grandeza que a virtude humana pode proporcionar.
E a Circe entregue por Nolan no filme? Ela é representada por uma senhora humilde, morando em uma instalação modesta (recuso-me a considerar o que um analista impertinente afirmou: "Circe é representada por uma senhora barriguda, com pé rachado, morando em um galinheiro").
Deve ser citado o aspecto positivo mais relevante do filme: o palácio de Odisseu. Foi reconstruído para as filmagens na parte mais alta de Corinto, na Grécia, no estilo micênico (estilo que foi escavado e identificado em Micenas e em Pilos). Note-se que todos os palácios micênicos citados nas obras de Homero, já foram descobertos: os palácios de Pilos, Micenas e Esparta. Só faltava o palácio de Odisseu; porém, na década de 1990, ele foi encontrado na ilha de Ítaca.
Ressalte-se que a descoberta desses palácios mostra que a obra de Homero não era apenas mitologia; estava embasada em fatos históricos.
Voltando aos aspectos negativos, as escolhas de Nolan não têm qualquer base histórica ou cultural. É apenas a escolha de um diretor; ele escolhe quem ele quiser para fazer seu filme; e ele tem a liberdade de fazer o que quiser dentro do filme. Contudo, ele optou por fazer um filme baseado na obra “Odisseia” e contar uma história que não é dele. Os personagens não foram criados por ele e não são propriedades intelectuais dele e nem da empresa produtora Universal. Ninguém tem direito sobre a “Odisseia”; a história já está pronta e consolidada por mais de 2000 anos.
A rigor, ele inverteu os ambientes e seres humanos da obra original. Alterar contextos, ambientes, caracterização de personagens ou etnia é falsificação de obra.
Liberdades artísticas existem em filme, contudo, no filme “Odisseia”, constatam-se falsificações artísticas.
Por que tudo isso em uma obra cinematográfica? Diriam alguns: é a interpretação do diretor Nolan! Essa afirmação deve ser contestada, afinal Nolan atingiu os seguintes objetivos:
(i) discurso motivacional, progressista, mercê de afronta a uma obra que é a origem e o início da história, cultura e civilização ocidental;
(ii) desafio ao conteúdo de uma obra que é patrimônio mundial;
(iii) enfrentamento gratuito às classes dominantes, na antiguidade;
(iv) oposição injustificada à hierarquia e à suposta opressão, em passado remoto; e
(v) possivelmente, tentativa da conquista de um Oscar pelas razões mencionadas.
Há tantas distorções na “Odisseia”, do Nolan, que o filme deveria ter outro nome. Minha sugestão é “Nolaneia”.
O diretor tem a liberdade de fazer o que lhe vem à telha, contudo ele não tem o direito de se apropriar de uma das maiores obras da literatura universal e impor-lhe modificações, de tal sorte que aqueles — sobretudo os mais jovens — que não têm o privilégio de um elevado padrão cultural passem a admirar a obra de Nolan como se fosse a de Homero. Então, que fique claro: a liberdade, um atributo basilar do ser humano, foi utilizada no filme “Odisseia” de forma inconveniente; e típica de procedimentos de profissionais desonestos.
Exagero? Não! Até porque macular obra-prima universal conspurca a educação e os valores fundamentais do ser humano.
Em síntese, o filme contraria os alicerces liberdade, verdade e ética. Em lugar de assistir ao filme, a recomendação de um sábio professor é ler o livro “Odisseia” e outras obras do autor grego.
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Nota.
O artigo reproduzido no jornal Gazeta do Povo, intitulado “A ‘Odisseia’ de Homero é um presente para nós”, do professor W. Winston Elliot III, é magnífico — constitui-se em apologia magna à obra de Homero. O professor Elliot III é diretor do Santuário de Nossa Senhora de Walsingham e professor visitante de Artes Liberais no Honors College da Universidade Cristã de Houston. O artigo foi publicado em 20/07/2026, após o lançamento do filme de Nolan, contudo não faz qualquer referência a essa película — o que revela extrema elegância por parte do renomado professor.
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