[1] Objetivo
Em face do comparecimento ao DCT, em 10/08/2026, por força do convite para a Aula Inaugural do 1º. Curso de Inteligência Artificial do Exército Brasileiro, resolvi formular uma síntese de minha participação em estágio, visita e intercâmbio em organizações e eventos relativos à pesquisa, desenvolvimento e produção de material bélico nos Estados Unidos, França, Rússia e China.
A partir dessa síntese, é apresentada o fator fundamental para o sucesso de empreendimentos de obtenção de material bélico com autonomia tecnológica e, por extensão, estratégica. Convém mencionar que ‘material bélico’ é chamado também de ‘material de defesa’ ou ‘material de emprego militar’.
Adicionalmente, são apresentadas consequências da decisão de empreender as atividades de pesquisa, desenvolvimento e produção de material bélico, bem como da omissão em empreendê-las.
[2] Estágios, visitas e intercâmbios
[2.1] Estágio no USACERL
– HQUSAE (HeadQuarters of US Army Corps of Engineers) – Washington-District of Columbia
––> 16 Set 1991
––> Missão e estrutura organizacional
––> Gerência e coordenação de obras de construção e atividades de meio ambiente; e de patrimônio imobiliário, de mobilização e P&D.
– ORD (Ohio River Division) – Cincinatti-Ohio State
––> 17 a 18 Set 1991
––> Missão e estrutura organizacional
––> Gerência e execução de obras militares e obras de cooperação
– USACERL (US Army Construction Engineering Research Laboratory) – Champaign-Illinois State
––> 19 a 20 Set 1991
––> O USACERL tem status de Departamento da University of Illinois at Urbana-Champaign
––> Missão e estrutura organizacional
––> Recursos humanos, materiais e financeiros
––> Programa de pesquisas: são realizados em 4 divisões: Engenharia e Materiais, Sistemas e Meios, Sistemas de Energia e Utilidades e Meio Ambiente.
[2.2] Visita a organizações de P&D/C&T da França
– 29 Mai a 10 Jun 1994;
– GIAT (Grupo Industrial de Armamento Terrestre), em Satory-Versailles
––> fabricação de Shelter, blindagem p/Vtr et al;
– IET (Instituto Europeu de Telemedicina), em Toulouse
––> o IET foi instalado junto ao Centro Hospitalar da Universidade de Toulouse;
––> P&D, produção e operação de sistemas de Telemedicina e Telediagnóstico;
– AEROSPATIALE, em Paris
––> Foco: P&D e produção dos mísseis Eryx e Exocet.
[2.3] Participação na “Russian Expo Arms 2008”
– 05 a 15 Jul 2008;
– Local: cidade de Nizhny Tagil, na Rússia [essa cidade abriga um Centro de Avaliações de material bélico, onde se realizou a REA 2008];
– Contexto: a REA 2008 apresentou material bélico pesquisado, desenvolvido e (ou) produzido por 339 empresas de 6 países (318 da Rússia, 7 da Bielo-Rússia, 7 da França, r da Ucrânia, 1 da Letônia e 1 do Cazaquistão);
– Uma expressiva parcela dos artefatos é de última geração, isto é, de tecnologia de ponta. Exemplos:
––> VANT (Veículo Aéreo Não Tripulado);
––> Multisensor para VANT;
––> Sistema de arma para carro de combate;
––> Simulador para treinamento de motorista e de emprego tático de carro de combate;
––> Equipamentos de visão termal;
––> Equipamentos de visão noturna; e
––> Equipamentos baseados em raio laser
[2.4] Intercâmbio com organizações de P&D/C&T da China
– 03 a 11 Abr 2010;
– Organização do Intercâmbio: Ministério da Defesa da República Federativa do Brasil e Ministério da Defesa da República Popular da China;
– FAO (Foreign Affairs Office) e QG do Exército Popular de Libertação, em Pequim
––> Tema: Cooperação nas áreas de ensino e instrução; armas e equipamentos; tecnologia e indústrias militares; e outros assuntos;
– Visita à NORINCO (China NORth INdustries Corporation), em Pequim
––> Objetivos: P&D e produção de Materiais de Emprego Militar;
– Visita à CETC (China Electronics Tecnology Group Corporation), em Nanjing
––> Empresa de Defesa, Eletrônica, Telecomunicações e TI;
––> Foco da visita: P&D e produção de radares (com alcance de 5 a 500 Km; produção divulgada: cerca de 1000 radares);
– Visita à cidade de Shangai
––> Objetivo: programação cultural.
[3] Fatores de sucesso para P&D e produção de material bélico
A partir desses eventos, é imperioso inferir que, independentemente do regime político prevalente — democracia nos Estados Unidos e França, e autoritarismo na Rússia e China —, há três fatores cruciais para a viabilidade e o sucesso da pesquisa, desenvolvimento e produção autônomos de material de defesa. Eles são: vontade e decisão política, capacidade de Engenharia e base industrial.
É preciso enfatizar que a autonomia significa o desencadeamento das atividades de. P&D e produção com recursos humanos, recursos financeiros e base industrial majoritariamente nacionais — em nosso caso, majoritariamente brasileiros.
A vontade e decisão política deve ser interpretada como a consciência intelectual e a consequente determinação de agir por parte dos elevados escalões da força armada que requer material bélico de ponta — e, por via de consequência, também das lideranças inferiores envolvidas nos respectivos processos.
A capacidade de Engenharia deve ser entendida como a existência no âmbito da força armada de engenheiros formados na melhor escola de Engenharia País e treinados para a atividade de P&D em centro de excelência.
O fator base industrial resulta da interação entre os centros de P&D e a indústria com qualificação para a produção de artefato novo e de última geração. Nesse caso, são fundamentais a comunicação eficaz entre as lideranças dos dois setores, bem como a vocação da empresa para o tipo de artefato requerido e a ser encomendado.
Afora o fato dessas proposições serem resultantes das experiências constatadas em dois países capitalistas liberais e em dois países autoritários — sendo a China um autoritário comunista — é relevante apresentar testemunho sobre os processos desencadeados no CTEx, de 2006 a 2010, para a obtenção de material bélico de ponta. Graças ao tripé mencionado, com ênfase para os alicerces de infraestrutura de qualificação de engenheiros e a interação com a base industrial, foi possível ao CTEx entregar para a Força Terrestre, pelo menos 6 artefatos bélicos que jamais foram pesquisados, desenvolvidos e produzidos no Hemisfério Sul, com recursos humanos, financeiros e industriais majoritariamente nacionais (enfatize-se: brasileiros!).
Dois artefatos que se encontram em pleno uso na atualidade na Força Terrestre são emblemáticos:
– o Simulador para Treinamento de Pilotos de Helicóptero Esquilo e Fennec — à época, denominado Simulador SHEFE;
– o radar de defesa antiaérea — denominado SABER-M60.
Podem ser citados também:
– o Sistema MAGE-COM Veicular;
– o Módulo de Telemática Operacional;
– o Míssil Superfície-Superfície 1.2 AC (MSS 1.2AC); e
– o Sistema de Metralhadora Automatizado X (REMAX).
Conquanto não aproveitados por falta ou demora na encomenda, merecem destaque:
– o Simulador Treinador Informatizado para Pistola (Simulador TIRO PST);
– o Veículo Leve de Emprego Geral Aerotransportável (VLEGA) “Gaúcho); e
– o Veículo Aéreo Não Tripulado VT 15 (VANT VT 15)
[4] Aspectos cruciais a considerar
[4.1] Adoção da visão de estadista e desencadeamento da pesquisa, desenvolvimento e produção de material bélico de ponta no Brasil, com recursos humanos e centros de P&D brasileiros, bem como com a participação de empresa com capital majoritariamente brasileiro. Em consequência, ocorrerá a independência tecnológica nesse campo de artefatos bélicos de ponta, com a redução da dependência estratégica e tecnológica geral, em relação aos países desenvolvidos.
[4.2] Adoção da visão — às vezes, realista — de não desencadeamento da P&D e produção de material bélico de ponta no Brasil. Em consequência, poderá haver a necessidade de compra futura de material bélico de ponta no mercado internacional, contribuindo para o fortalecimento de empresas estrangeiras com essa capacitação e aumento de dependência estratégica e tecnológica, em relação aos países desenvolvidos.
[4.3] Não há uma visão correta e outra errada! É crucial que se tenha consciência da existência de ambas e das respectivas consequências. Nesse contexto, é imperioso asseverar que as duas visões citadas devem ser consideradas pelos responsáveis políticos, organizacionais e institucionais pela busca de autonomia ou redução da dependência tecnológica e estratégica (inseridos nos comandos das forças armadas e no governo da República), bem como pelos responsáveis intelectuais do processo de P&D e produção de equipamentos bélicos (inseridos nas organizações de Ciência & Tecnologia).
[4.4] De qualquer sorte, há a conveniência de considerar também:
[4.4.1] “A pesquisa, o desenvolvimento, a fabricação e a avaliação autônomos de Material de Emprego Militar condicionam as aspirações estratégicas e políticas de um país.” [*]
[4.4.2] “Candidata-se à decadência antes de atingir o ápice o país cujas Forças Armadas não possuem o domínio do ciclo de vida de seus artefatos bélicos.” [*]
[*] Em palavras alusivas ao 27º aniversário do CTEx (2006).
[Aléssio Ribeiro Souto]
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