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| "O lavrador perspicaz conhece o caminho do arado." Homenagem a Oscar Barbosa Souto Antigo lavrador, garimpeiro, comerciante, tabelião e juiz de Paz. In Memoriam. |
De última hora, tomei a decisão de ir ao Rio de Janeiro para a transmissão, em 7 de abril, da chefia do Centro Tecnológico do Exército (CTEx), organização militar do ramo de Ciência e Tecnologia, que chefiei de 2006 a 2009. Para tal, saí de Brasília em 6 de abril e retornei hoje, 9 de abril.
A motivação foi a solenidade de transmissão do cargo de chefe do CTEx, pelo general Castilho para o general Maurício; e o fato de ambos terem trabalhado comigo no CTEx, quando o primeiro era major e outro capitão, respectivamente. E não apenas isso: naquela época, eles demonstravam excelência de comportamento pessoal e profissional, o que os conduziu aos ápices de suas carreiras, culminados com a honrosa chefia do CTEx.
Minha presença na solenidade foi plena de satisfação, não apenas pela razão principal — a transmissão do cargo — mas também porque revi e conversei de forma extremamente agradável, com dezenas de companheiros da ativa e da reserva, que não encontrava há muito tempo e que foram meus subordinados, por ocasião de minha chefia do CTEx.
Outra razão da viagem foi interagir, ao longo desses três dias, com a sogra Maria Helena que, de forma exemplar, está enfrentando e superando, com sucesso, os naturais problemas que afetam aqueles que têm a ventura e o privilégio de chegar próximo dos 90 anos.
Na véspera do retorno para Brasília, eu e Maria Helena fomos jantar no restaurante da Zazá, na Livraria Travessa.
Trata-se de um bom restaurante, ambientado no universo bibliográfico, tão necessário para os cidadãos comprometidos com o bom senso, a razão e a lógica.
O diálogo com Maria Helena foi rico e agradável, até porque foi permeado de bom humor durante boa parte do tempo.
O garçom que nos atendeu tinha a identificação na parte externa do bolso da camisa — ele se chama José.
Anunciei-lhe que faria uma indagação pessoal e perguntei qual era a data de seu nascimento. Ele respondeu que era 17 de junho.
Justifiquei minha indagação mencionando que meu irmãozinho, que nos deixou muito cedo, chamava-se José, porque nasceu em 19 de março, dia de São José.
Aí, com entusiasmo, o garçom relatou o que poderia parecer improvável! A razão de seu júbilo era outra: ele era filho de um casal indígena, que morava em uma cidadezinha do Ceará, tinha 22 irmãos e todos, inclusive ele, chamavam-se José — claro seguido de outro nome para diferenciá-los.
Com alguma hesitação, indaguei se todos eram oriundos da mesma família. Ele respondeu com ênfase que todos provinham do mesmo pai e mesma mãe.
O diálogo prosseguiu com fatos e circunstâncias não tão relevantes para a constatação inusitada.
Quando o José se afastou — em realidade era José Moacir —, comentei com Maria Helena que, do alto de meus quase 80 anos, jamais tinha tomado conhecimento de algo parecido, isto é:
- uma família de indígenas com dezenas de rebentos;
- uma única família, indígena ou não, com 23 rebentos; e
- uma família com dezenas de rebentos, em que todos tinham o primeiro nome igual; e
- um caboclo oriundo do interior do Nordeste frequentando ambiente de trabalho onde circulava a elite cultural do País — a Livraria Travessa.
Maria Helena declarou que ela — e permito-me enfatizar, do alto de seus 90 anos — também jamais tinha vivenciado a existência de uma família com as características da família dos 23 “Josés”.
No atinente ao mencionado ambiente da Livraria Travessa, a querida sogra recordou que, há algumas décadas, o escritor turco Orhan Pamuk veio ao Brasil para o lançamento de seu mais recente livro. A tarde de autógrafos habituais foi na Livraria Travessa. Seu marido — e meu sogro, o embaixador Cláudio Luiz — compareceu ao evento, adquiriu o livro devidamente autografado pelo Pamuk. Maria Helena aduziu que ela se atrasou por causa de outro compromisso e, infelizmente, não chegou a tempo de participar do lançamento de livro por um escritor com relevância global.
Contudo, quando estava passando pela esquina das ruas Aníbal de Mendonça com Visconde de Pirajá, ela viu o escritor Pamuk caminhando com um acompanhante, possivelmente, em direção ao veículo que o transportava. Ela não titubeou, de surpresa, dirigiu-se a ele, cumprimentou-o e declarou lamentar por não ter participado daquela tarde emblemática; e sobretudo por perder a oportunidade histórica de ter um livro com o respectivo autógrafo. Nesse contexto, o Pamuk sugeriu que eles voltassem à Livraria (que ficava perto daquela esquina), uma vez que ele firmaria seu autógrafo em um livro destinado a ela.
Dessa forma, a admiração ao ganhador do Prêmio Nobel de Literatura chegou a uma dimensão não imaginada.
Eu disse para a Maria Helena que o Pamuk morava em Londres porque enfrentou problema com o governo de seu país, a Turquia. Em realidade, ele mora em Nova Iorque. Quem mora em Londres é o escritor Salman Rushide. Esse indiano escreveu um livro com referências consideradas injuriosas pelos muçulmanos e a liderança islâmica lançou uma “fatwa” determinando seu assassinato por integrantes dessa religião. Meu engano se deve à coincidência originada pelo fato de que Pamuk contrariou o governo turco liderado pelo muçulmano Erdogan.
Por óbvio, fatos curiosos e inusitados enriqueceram o nosso jantar. Ademais, os pratos do restaurante da Zazá da Livraria Travessa estavam deliciosos. Maria Helena mencionou também que o restaurante da Zazá do Leblon (ou de Ipanema?) foi instalado há mais de 40 anos e continua uma referência gastronômica carioca.
Enfim, como diria um consagrado locutor esportivo: “o tempo passa!…” e tudo segue, de forma a garantir que a vida vale a pena ser vivida, de preferência, com alegria e sem jamais renunciar aos valores e crenças fundamentais do ser que pensa com nobreza e age com virtude.
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