sábado, 25 de julho de 2026

Filme “A Odisseia” – 5

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Alteração da obra de Homero

Com o título “Nolan acima de Homero: Odisseia é grandiosa na forma, estéril na essência”, publicado no jornal Gazeta do Povo, Elias Grintzos, engenheiro e filósofo, formulou umas das melhores análises do filme ‘A Odisseia’, de Cristopher Nolan. 

Para não subverter a visão do colunista, é preferível transcrever dois parágrafos de seu brilhante texto. Então, segue... 

“‘A Odisseia’ utiliza a obra de Homero como matéria-prima para um filme de Christopher Nolan. Coloca Homero em segundo plano e transforma um dos grandes pilares da cultura ocidental em um veículo para a visão artística de seu diretor.”

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No fim, ‘A Odisseia’ utiliza a obra de Homero como matéria-prima para um filme de Christopher Nolan. Coloca Homero em segundo plano e transforma um dos grandes pilares da cultura ocidental em um veículo para a visão artística de seu diretor, excluindo e subvertendo significados e símbolos.

Concordando com a visão de Grintzos, repeti junto a seu texto minha visão atinente ao filme. Trata-se de repetição do que já havia postado no Estadão, no New York Times e na própria Gazeta do Povo.

O caboclo distorceu uma obra-prima da criatividade humana, individual ou coletiva. Como, por exemplo, nas distorções da gestão pública em nosso rico, mas malsinado País, tem gente que gosta, aplaude, apoia e defende. Isso se chama democracia, que é o menos ruim dentre todos os regimes, e assim o é, pois permite a liberdade e a existência dos demais. Que venham as distorções e que prevaleça a liberdade. Ora, o que é bom mesmo é a impossibilidade de conspurcar, cancelar e impedir a prevalência da verdade e da ética.


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Filme “A Odisseia” - 4 – [New York Times]

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The smartest man, his battle and his war

In the article "In 'The Odyssey' and 'Oppenheimer,' Nolan Knows Civilization Is at Stake", published in the New York Times, columnist Alissa Wilkinson uses her talent and knowledge to offer a positive analysis of the film ‘The Odyssey’, relying on the messages of Christopher Nolan's previous films. 

Alissa concludes her proposition by stating that “In these aspirations, ‘The Odyssey’ may be Nolan’s grandest film. Like ‘Oppenheimer’, it tells a story of the smartest man on earth realizing that he has won his battle but lost the war, and inalterably changed the course of humanity: a monumental burden almost too great to bear. But the more majestic and epic Nolan’s films become, the more humanist he seems, too.”

It is legitimate for the director to conduct his work to evaluate a given situation in which human beings navigate, however he could not do this thanks to the insertion of distortions in someone else's work, especially someone with the size of the Greek Homer.

There are so many distortions in Mr. Nolan’s ‘The Odyssey’ that the film ought to bear a different name. My suggestion is ‘The Nolaney’.

While a director is free to do whatever strikes his fancy, he has no right to appropriate one of the greatest works of world literature and impose modifications upon it—to the point where those lacking the privilege of a high level of cultural literacy (especially the young) come to admire Nolan’s work as if it were Homer’s.

Let it be clear, then: freedom—a fundamental human attribute—was exercised in the film ‘The Odyssey’ in an inappropriate manner, reminiscent of the tactics of a dishonest organization.

An exaggeration? No! After all, tarnishing a universal masterpiece corrupts education and fundamental human values. In short, the film runs counter to the pillars of freedom, truth, and ethics.

Instead of watching the film, a wise teacher would recommend reading the book ‘The Odyssey’ and other works by the Greek author.


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O homem mais sábio, sua batalha e sua guerra

No artigo "Em ‘Odisseia’ e ‘Oppenheimer’, Nolan sabe que a civilização está em jogo” (“In ‘The Odyssey’ and ‘Oppenheimer,’ Nolan Knows Civilization Is at Stake”), publicado no jornal New York Times, a articulista Alissa Wilkinson vale-se de seu talento e cultura para fazer uma análise positiva do filme ‘Odisseia’, apoiando-se nas mensagens dos filmes anteriores de Cristopher Nolan. 

Alissa conclui sua proposição afirmando que “Nesse sentido, ‘A Odisseia’ pode vir a ser o filme mais grandioso de Nolan. Assim como ‘Oppenheimer’, ele narra a história do homem mais inteligente da Terra que se dá conta de ter vencido a batalha, mas perdido a guerra — e de ter alterado de forma irreversível o curso da humanidade: um fardo monumental, quase pesado demais para ser suportado. No entanto, quanto mais majestosos e épicos se tornam os filmes de Nolan, mais humanista ele também parece ser.”

É válido que o diretor conduza sua obra para avaliar uma dada conjuntura em que o ser humano navega, contudo ele não poderia fazer isso mercê da inserção de distorções na obra de outrem, sobretudo alguém com a dimensão do grego Homero.

Há tantas distorções na 'Odisseia' do Sr. Nolan que o filme deveria ter um nome diferente. Minha sugestão é 'Nolaneia'.

Embora um diretor seja livre para fazer o que lhe der na telha, ele não tem o direito de se apropriar de uma das maiores obras da literatura mundial e impor modificações a ela — a ponto de aqueles que não têm o privilégio de um alto nível de alfabetização cultural (especialmente os jovens) passarem a admirar a obra de Nolan como se fosse a de Homero.

Que fique claro, então: a liberdade — um atributo humano fundamental — foi exercida no filme 'Odisseia' de maneira inadequada, lembrando as táticas de uma organização desonesta. Um exagero? Não! Afinal, macular uma obra-prima universal corrompe a educação e os valores humanos fundamentais. Em suma, o filme vai contra os pilares da liberdade, da verdade e da ética.

Em vez de assistir ao filme, um professor sábio recomendaria a leitura do livro 'Odisseia' e de outras obras do autor grego.


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sexta-feira, 24 de julho de 2026

Filme “A Odisseia” – 3 – [New York Times]

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Talent, creativity, and ethics — the foundations of a masterpiece

Judging by the large number of media reports, the majority of experts approved of Christopher Nolan’s film ‘The Odyssey’; however, a significant minority took issue with the way the director handled the work.

Given my limited and modest knowledge of the cinematic arts, I count myself among those who disapproved of the celebrated director's work. For this reason, I sent the message transcribed below to The New York Times.

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Dear Sir,

There are so many distortions in Mr. Nolan’s ‘The Odyssey’ that the film ought to bear a different name. My suggestion is ‘The Nolaney’.

While a director is free to do whatever strikes his fancy, he has no right to appropriate one of the greatest works of world literature and impose modifications upon it—to the point where those lacking the privilege of a high level of cultural literacy (especially the young) come to admire Nolan’s work as if it were Homer’s.

Let it be clear, then: freedom—a fundamental human attribute—was exercised in the film ‘The Odyssey’ in an inappropriate manner, reminiscent of the tactics of a dishonest organization. An exaggeration? No! After all, tarnishing a universal masterpiece corrupts education and fundamental human values. In short, the film runs counter to the pillars of freedom, truth, and ethics.

Instead of watching the film, a wise teacher would recommend reading the book ‘The Odyssey’ and other works by the Greek author.

Why include all this in a cinematic work? Some might say: it is director Nolan’s interpretation! This claim must be challenged; after all, Nolan achieved the following:

(i) a motivational, progressive narrative that affronts a work representing the origin and foundation of Western history, culture, and civilization;

(ii) a challenge to the content of a work that constitutes world heritage;

(iii) a gratuitous confrontation with the ruling classes within an ancient setting;

(iv) an unjustified opposition to hierarchy and alleged oppression—I emphasize: within an ancient setting—something that defies common sense, reason, and logic; and

(v) possibly, an attempt to win an Oscar based on the aforementioned reasons.

Furthermore, to understand, experience, and reflect upon current reality, one need not rely on Homer’s work. Talent, creativity, and ethics are all that is required to create one’s own masterpiece.

Best regards,

Alessio Ribeiro Souto

NYT Subscriber


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Talento, criatividade e ética — alicerces de uma obra-prima

Pelo elevado número de matérias publicadas na mídia, a maioria dos especialistas aprovou o filme ‘Odisseia’, do Cristopher Nolan, contudo uma minoria expressiva se posicionou contra a forma como o diretor conduziu sua obra.

Em meu limitado e modesto conhecimento da arte cinematográfica, eu me posicionei na amostra de universo que desaprovou o trabalho do célebre diretor. Por essa razão, enviei a mensagem transcrita a seguir para o jornal New York Times.

Prezado Senhor,

Há tantas distorções na ‘Odisseia’ do Sr. Nolan que o filme deveria ter outro nome. Minha sugestão é ‘Nolaneia’.

Embora um diretor tenha liberdade para fazer o que bem entender, ele não tem o direito de se apropriar de uma das maiores obras da literatura mundial e impor-lhe modificações — a ponto de aqueles que não possuem o privilégio de um alto nível de cultura geral (especialmente os jovens) passarem a admirar a obra de Nolan como se fosse a de Homero.

Que fique claro, então: a liberdade — um atributo humano fundamental — foi exercida no filme ‘Odisseia’ de maneira inadequada, lembrando as táticas de uma organização desonesta. Um exagero? Não! Afinal, macular uma obra-prima universal corrompe a educação e os valores humanos fundamentais. Em suma, o filme contraria os pilares da liberdade, da verdade e da ética.

Em vez de assistir ao filme, um professor sensato recomendaria a leitura do livro ‘Odisseia’ e de outras obras do autor grego.

Por que incluir tudo isso em uma obra cinematográfica? Alguns poderiam dizer: é a interpretação do diretor Nolan! Essa afirmação deve ser contestada; afinal, Nolan conseguiu o seguinte:

(i) uma narrativa motivacional e progressista que afronta uma obra que representa a origem e o fundamento da história, da cultura e da civilização ocidentais;

(ii) um desafio ao conteúdo de uma obra que constitui patrimônio mundial;

(iii) um confronto gratuito com as classes dominantes em um cenário da Antiguidade;

(iv) uma oposição injustificada à hierarquia e à suposta opressão — ressalto: em um cenário da Antiguidade —, algo que desafia o bom senso, a razão e a lógica; e

(v) possivelmente, uma tentativa de ganhar um Oscar com base nas razões mencionadas.

Além disso, para compreender, vivenciar e refletir sobre a realidade atual, não é preciso recorrer à obra de Homero. Talento, criatividade e ética são tudo o que é necessário para criar a sua própria obra-prima.

Atenciosamente,

Alessio Ribeiro Souto

Assinante do NYT

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quinta-feira, 23 de julho de 2026

Filme "A Odisseia" - 2

"O lavrador perspicaz conhece o caminho do arado."
Homenagem a Oscar Barbosa Souto
Antigo lavrador, garimpeiro, comerciante, tabelião e juiz de paz.
In Memoriam.

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“A Nolaneia” versus “A Odisseia”

O articulista Paulo Cruz publicou no jornal Gazeta do Povo o artigo “Cristopher Nolan traiu Homero?”, no qual faz uma defesa das alterações que, em seu filme “A Odisseia”, Nolan adotou em relação ao conteúdo da obra homônima de Homero, que foi o alicerce da obra cinematográfica. 

Como, anteriormente, eu postara no jornal Gazeta do Povo uma efusiva condenação aos procedimentos de Nolan para conceber seu filme, voltei ao assunto enfatizando a ideia de falsificação artística da obra-prima universal do célebre autor grego.


Nesse caso, o filme deveria se chamar “A Nolaneia”. O diretor tem o direito de fazer as modificações que quiser, porém não pode apegar-se à covardia de utilizar no título de sua obra o nome da obra de Homero. Se o filme fosse sobre uma lendária heroína africana negra e o diretor utilizasse uma louríssima, os intelectuais e demais sábios de plantão o crucificariam. A maioria dos jovens não leu o livro a "A Odisseia"; e ao assistirem ao filme do Sr. Nolan ficarão impactados por uma falsificação artística do diretor e não pela obra original. Quem não quiser ler "A Odisseia", mas quer informações alicerçadas na verdade, que leia o artigo da Gazeta “A ‘Odisseia’ de Homero é um presente para nós”.


Ademais, para conhecer, vivenciar e refletir sobre a realidade atual, não é preciso valer-se da obra de Homero. Basta talento, criatividade e ética para inventar sua própria obra-prima.


O leitor Glauco André fez uma observação curiosa relativa à minha visão sobre o filme de Nolan, isto é, ele revelou a expectativa de que eu não tivesse visto dois filmes sobre Jesus Cristo — “The Chosen” e “A Paixão de Cristo”. Minha percepção é que, implicitamente, ele estava cogitando do fato de que a figura do filho do Criador é transfigurada nessas duas películas. Repliquei justificando-me!


Além de Filho de Deus, Cristo é o maior ser humano da humanidade! Prefiro a Bíblia! Deturpações, bastam as que temos no meio político, até porque dessas não há como nos livrarmos! A liberdade não pode se dissociar da verdade nem da ética.


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quarta-feira, 22 de julho de 2026

Ofensa de uma dama desrespeitosa

A senhora esposa do atual presidente da República cometeu um desatino ao afirmar que “as outras primeiras-damas não trabalharam”. 

Por óbvio, trata-se de uma ofensa à memória das inesquecíveis senhoras Sarah Kubitschek e Ruth Cardoso, bem como da senhora Michele Bolsonaro, que, de forma discreta, trabalharam com afinco em benefício da população brasileira.

Como primeira-dama do governo JK, a senhora Sarah foi uma organizadora de assistência social e filantropa brasileira. Entre suas iniciativas estiveram hospitais volantes, campanhas de vacinação e exames, escolas, lactários, o Centro de Pesquisas Luiza Gomes de Lemos, especializado na prevenção do câncer feminino, e o Centro de Reabilitação Sarah Kubitschek, origem histórica da atual Rede Sarah.

De forma similar, como primeira-dama do governo FHC, a senhora Ruth criou o Programa Comunidade Solidária em 1995, uma iniciativa que redefiniu as políticas sociais no Brasil ao focar no combate à pobreza através do fortalecimento da sociedade civil.

Já a senhora Michele, primeira-dama do governo Bolsonaro, pode ser citada como benemérita de cidadãos que apresentam necessidades especiais e de famílias na situação de vulnerabilidade social. Durante quatro anos, ela fez extraordinário trabalho de apoio, especialmente na área de saúde para essas pessoas que habitualmente foram objeto de pouca atenção dos políticos em função de alta gestão pública.


Ademais, nas penitenciárias do exoplaneta de uma galáxia muito distante, chegam 'enésimas-damas' que trabalham e prestam serviços virtuosos para a comunidade. A virtude está em respeitar todos os seres humanos. A glória está em movimentar-se com precaução, ouvir muito e falar pouco. É certo que o sucesso depende de talento, ambição e experiência. Quem sabe, sabe; irrita e incomoda, mas sonha e usufrui da liberdade com prazer intenso e incomparável. E ascende até a aeronaves intercontinentais.


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Filme “A Odisseia” - 1

"O lavrador perspicaz conhece o caminho do arado."
Homenagem a Oscar Barbosa Souto.
Antigo lavrador, garimpeiro, comerciante, tabelião e juiz de paz.
In Memoriam.

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Nolan versus Homero

Com grande publicidade, foi lançado o filme “A Odisseia”, de Cristopher Nolan, ambientado na Grécia antiga e baseado em livro homônimo do escritor grego Homero. Há grandes controvérsias no andamento dessa película. 

Inspirando-me em um vídeo postado nas redes sociais por um jovem não identificado, mas profundo conhecedor das obras de Homero, apresento os aspectos mais questionáveis ou provocativos do filme “A Odisseia”, de tal sorte a entregar posicionamentos não tão favoráveis, sobre a obra, aos interessados em arte cinematográfica.

O diretor Nolan colocou a atriz negra Lupita Nyong’o para interpretar Helena de Troia. É imperioso destacar que o ideal de beleza feminina para o mundo grego antigo era baseado na pele branca e clara. Os gregos não viam o mundo como raça branca ou negra; eles viam a cor como estética e símbolo social e divino. Portanto, colocar uma atriz negra para representar Helena é inverter completamente o padrão de beleza do povo que criou essa história. Adicionalmente, Nolan colocou Lupita Nyong’o para interpretar também Clitemnestra, esposa de Agamenon, irmã de Helena. Quer dizer, houve a decisão da escolha de Lupita para fazer o papel de duas aristocratas gregas branquelas da cultura grega. 

A escolha de Lupita, uma atriz negra, não tem a menor justificativa histórica ou cultural. Um articulista debochado diria que isso equivale a colocar uma atriz loira para fazer o papel de uma grande heroína africana negra, em um filme épico daquela região.




Helena, segundo artistas dos séculos XVIII e XIX.


De acordo com o livro de Homero, a cena mais conhecida e emblemática da história inteira é a chegada de Odisseu e seus guerreiros na ilha dos Ciclopes. Com esse episódio, Homero cria, pela primeira vez, o terror psicológico global — quando Odisseu e seus guerreiros ficam presos na caverna, há uma agonia e um terror indescritível; terror lento, mórbido e agonizante. O diálogo entre Odisseu e o Ciclope Polifeno (filho de Poseidon) é incomparável; Odisseu o engana e foge. 

Nolan não chega nem perto de passar a emoção e a angústia que esse conjunto de cenas carrega na obra.

Depois de fugirem da ilha de Eulo, que é o senhor dos ventos, os navios pegam tempestades e são arrastados e desembarcam na ilha dos Lestrigones — os comedores de homens. Aí uma carnificina começa a ocorrer e Odisseu e seus homens tentam retornar para os navios. Morreram mais amigos de Odisseu nesse episódio do que durante toda a Guerra de Troia. Os Lestrigones começam a lançar pedras nas embarcações de Odisseu e destroem 11 dos 12 navios. Trata-se do evento mais traumático e psicologicamente terrível de toda a obra.

Nesse caso, Nolan torna o episódio irrelevante; ademais, coloca nos bárbaros Lestrigones, vivendo na idade do bronze, armaduras de aço, existente apenas em idades recentes.

E os navios de Odisseu? Nolan utilizou navios vikings na Grécia antiga. Quem consegue construir um navio viking, pode facilmente fazer um navio grego antigo, como, por exemplo, os que apareceram no filme Troia. 

Ora, em filme épico com um orçamento estelar, Nolan deveria utilizar embarcações que projetassem o ambiente histórico que está sendo transmitido.

Agora, vem Demódoco, um respeitado bardo da Grécia antiga. Ele é o bardo divino da corte de Alcino, que é inspirado pelas musas divinas a cantar a história dos gregos. 

Nolan colocou no filme, um personagem do “RAP” (estilo de música urbana focado no ritmo, rima e poesia falada — Rhythm And Poetry), sob a alegação de que esse gênero da atualidade tem uma forte tradição oral assim como a poesia grega.

A deusa Atena, linda e inspiradora na obra de Homero, apareceu no filme como personagem que poderia ser considerada uma lavadeira. Imagine Odisseu passando 20 anos longe de casa, passando fome e frio, naufragando, tendo centenas de guerreiros amigos sendo devorados por monstros; indo para o Ades, encontrando a mãe morta, ou seja, sofrendo de forma intensa; e aí quando aparece Atena, para confortá-lo, enchê-lo de coragem, surge uma aparição que está longe de beleza e inspiração; a rigor, está mais acabada do que o próprio Odisseu depois de 20 anos de guerra! Se Atena aparecesse assim para Odisseu, iria deixá-lo mais desanimado e pessimista. 

Uma vez mais, Nolan quebrou a virtude da obra original, pois falta à sua Atena elevada postura, firmeza, controle emocional e brilho.

Por último e extremamente relevante, relembremos a Circe de Homero. Ela vivia em um glorioso palácio, cercado de servas alegres, mercê de ambiente onde prevalecia a beleza humana e material, bem como a grandeza que a virtude humana pode proporcionar. 

E a Circe entregue por Nolan no filme? Ela é representada por uma senhora humilde, morando em uma instalação modesta (recuso-me a considerar o que um analista impertinente afirmou: "Circe é representada por uma senhora barriguda, com pé rachado, morando em um galinheiro").

Deve ser citado o aspecto positivo mais relevante do filme: o palácio de Odisseu. Foi reconstruído para as filmagens na parte mais alta de Corinto, na Grécia, no estilo micênico (estilo que foi escavado e identificado em Micenas e em Pilos). Note-se que todos os palácios micênicos citados nas obras de Homero, já foram descobertos: os palácios de Pilos, Micenas e Esparta. Só faltava o palácio de Odisseu; porém, na década de 1990, ele foi encontrado na ilha de Ítaca.

Ressalte-se que a descoberta desses palácios mostra que a obra de Homero não era apenas mitologia; estava embasada em fatos históricos.

Voltando aos aspectos negativos, as escolhas de Nolan não têm qualquer base histórica ou cultural. É apenas a escolha de um diretor; ele escolhe quem ele quiser para fazer seu filme; e ele tem a liberdade de fazer o que quiser dentro do filme. Contudo, ele optou por fazer um filme baseado na obra “A Odisseia” e contar uma história que não é dele. Os personagens não foram criados por ele e não são propriedades intelectuais dele e nem da empresa produtora Universal. Ninguém tem direito sobre a “A Odisseia”; a história já está pronta e consolidada por mais de 2000 anos. 

A rigor, ele inverteu os ambientes e seres humanos da obra original. Alterar contextos, ambientes, caracterização de personagens ou etnia é falsificação de obra. 

Liberdades artísticas existem em filme, contudo, no filme “A Odisseia”, constatam-se falsificações artísticas.

Por que tudo isso em uma obra cinematográfica? Diriam alguns: é a interpretação do diretor Nolan! Essa afirmação deve ser contestada, afinal Nolan atingiu os seguintes objetivos: 

(i) discurso motivacional, progressista, mercê de afronta a uma obra que é a origem e o início da história, cultura e civilização ocidental; 

(ii) desafio ao conteúdo de uma obra que é patrimônio mundial; 

(iii) enfrentamento gratuito às classes dominantes, na antiguidade; 

(iv) oposição injustificada à hierarquia e à suposta opressão, em passado remoto; e 

(v) possivelmente, tentativa da conquista de um Oscar pelas razões mencionadas.


Há tantas distorções em “A Odisseia”, do Nolan, que o filme deveria ter outro nome. Minha sugestão é “A Nolaneia”. 

O diretor tem a liberdade de fazer o que lhe vem à telha, contudo ele não tem o direito de se apropriar de uma das maiores obras da literatura universal e impor-lhe modificações, de tal sorte que aqueles — sobretudo os mais jovens — que não têm o privilégio de um elevado padrão cultural passem a admirar a obra de Nolan como se fosse a de Homero. Então, que fique claro: a liberdade, um atributo basilar do ser humano, foi utilizada no filme “Odisseia” de forma inconveniente; e típica de procedimentos de profissionais desonestos. 

Exagero? Não! Até porque macular obra-prima universal conspurca a educação e os valores fundamentais do ser humano. 

Em síntese, o filme contraria os alicerces liberdade, verdade e ética. Em lugar de assistir ao filme, a recomendação de um sábio professor é ler o livro “A Odisseia” e outras obras do autor grego.


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Nota.

O artigo reproduzido no jornal Gazeta do Povo, intitulado “ A Odisseia’ de Homero é um presente para nós”, do professor W. Winston Elliot III, é magnífico — constitui-se em apologia magna à obra de Homero. O professor Elliot III é diretor do Santuário de Nossa Senhora de Walsingham e professor visitante de Artes Liberais no Honors College da Universidade Cristã de Houston. O artigo foi publicado em 20/07/2026, após o lançamento do filme de Nolan, contudo não faz qualquer referência a essa película — o que revela extrema elegância por parte do renomado professor.


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