sábado, 7 de março de 2026

Uma leitura fascinante

"O lavrador perspicaz conhece o caminho do arado."
Homenagem a Oscar Barbosa Souto
Antigo lavrador, garimpeiro, comerciante, tabelião e juiz de paz.
In Memoriam.

Retomei a leitura do livro “A FRONTEIRA”, da escritora norueguesa Erika Fatland — um belo presente ganho em meu aniversário. Ao longo de suas quase 700 páginas, em uma formulação instigante e desafiadora, constata-se que, durante os anos de 2015 e 2016, a aventureira Erika percorreu mais de 20 mil quilômetros, ao longo da fronteira do gigantesco território da Rússia. 


Conforme seu relato, na épica aventura, a jornalista Erika partiu de navio, da localidade de Kirkenes, próxima da fronteira tríplice entre a Noruega, Finlândia e Rússia; prosseguiu pelo Mar Báltico até o Estreito de Bering, junto ao Alaska e enveredou para o Sul. 

Deslocou-se de avião doméstico norte-coreano, trem chinês de alta velocidade, trem suburbano cazaque, ônibus, micro-ônibus, cavalo, táxi, barco de carga, caiaque ou usando seus próprio pés e viajou por catorze países e três repúblicas separatistas: Coreia do Norte, China, Mongólia, Cazaquistão, Azerbaijão, Nagorno-Karabakh, Geórgia, Abecásia, Ucrânia, República Popular de Donetsk (depois incorporada pela Rússia), Bielorrúsia, Lituânia, Polônia, Letônia, Estônia, Finlândia e, finalmente, Noruega, exatamente no ponto de partida.

Apresento a seguir, excertos do último capítulo da lavra de Erika Fatland.

“Nenhum dos lugares que visitei estava a salvo de traumas ou cicatrizes em função de sua vizinhança com a Rússia. Sobretudo povos e etnias minoritárias, esmagados entre as mós do poder ao longo de séculos, dilacerados pelas diferenças entre grandes potências, deslocados à força de um lugar para outro.

“Nações não têm memória, nações não têm feridas que saram, nações não têm cicatrizes. Tudo isso pertence unicamente a indivíduos, um mais um mais um mais um, milhões deles.

“..........

“Acima de tudo, tenho a sensação de haver testemunhado tanto a mais completa ausência de direção quanto o puro oportunismo. O Império Russo agigantou-se dessa monta precisamente porque os governantes de plantão aproveitavam todas as oportunidades que se lhes apresentavam para expandir a fronteira, a qualquer custo, e raramente se esquivaram da brutalidade, do jogo sujo ou de declarar mais uma guerra.

“Ao longo da história, o tamanho tem sido a melhor defesa da Rússia. As distâncias são tão grandes que nenhum exército estrangeiro foi capaz de dar conta dessa enorme massa de terra. Mas o tamanho também é o calcanhar de aquiles da Rússia. O Império Romano, o Império Persa, o Califado Omíada e o Império Mongol deixaram de existir simplesmente porque ficaram grandes demais. O centro perdeu a capacidade de controlar a periferia ou defender as fronteiras externas contra os exércitos invasores.

“Quando finalmente entrou em colapso, a União Soviética o fez sobretudo porque os habitantes de suas áreas mais periféricas se rebelaram, e assim, máscara por máscara, república por república, da Lituânia à Geórgia, o império se desfez. A Rússia perdeu aproximadamente, 20% de seu território, bem como mais da metade de seus habitantes.

“Mesmo assim, ainda é gigantesca. Tem quatro vezes o tamanho da União Europeia e quase o dobro dos EUA e da China. A fronteira da Rússia, conforme descrito neste livro, em também será história. Talvez se expanda antes de se contrair novamente, convulsionando-se como uma serpente em agonia, tão difícil que é imaginar que uma Rússia com seus quase duzentos grupos étnicos e nacionalidades, sues 17 milhões de quilômetros quadrados e 60 mil quilômetros de fronteira continue existindo como uma só entidade no longo prazo — seja no longo prazo de uma geração, seja ao longo de cem ou duzentos anos.

“Em 1991, a Rússia ganhou oito novos países vizinhos Em breve podem ser mais. Uma das razões pelas quais Iéltsin, e depois Putin, reprimiram tanto os rebeldes da Tchetchênia foi o temor de que o império se fragmentasse ainda mais. Até aqui a Tchetchênia vem sendo governada com punho de ferro pelo ditador Ramzan Kadyrov, mas tanto cortinas quando punhos de ferro podem enferrujar e se desfazer, às vezes da noite para o dia.”

O livro é fantástico uma vez que apresenta aspectos das histórias milenares de cada país, com ênfase para o impacto político e estratégico das interações dos respectivos governantes com mandatário da Rússia. 

Afora, citações bibliográficas rigorosas, o texto descreve a interação da autora com personagens relevantes de cada país e, não raro, transmite, com simplicidade, eventos significativos que enriquecem os respectivos relatos e os juízos de valor sempre equilibrados e verossímeis.

A obra permite a compreensão da importância da Rússia para a Ásia e para a Europa, mercê da insuperável grandeza territorial (17 milhões de quilômetros quadrados e 60 mil quilômetros de fronteira), bem como da complexidade populacional, resultante das diferentes etnias que compõem o perfil humano do país.

Por último e fundamentalmente relevante, a caracterização do autoritarismo comunista da Rússia bem como do autoritarismo nazista da Alemanha — que a autora apresenta, deplorando a ambos — encaminha para o conceito crucial que, modestamente, já apresentei em alguns textos passados, atinente ao objetivo fundamental do ser humano que “é a busca da paz e da harmonia, somente possível por intermédio do sistema democrático que, por seu turno, é alicerçado na liberdade, verdade, coragem e ética.”

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